Só tem uma coisa que me tira mais atenção do que um bom livro no trem, e são as pessoas. Minha mãe sempre me chamou a atenção, falando que é feio ficar reparando nos outros, mas isso é algo que vai além de mim, além do meu controle, quando dou por mim já estou com os olhos fixos em uma pessoa, analisando ela, imaginando o que ela faz, qual é a comida preferida, se ela tem cachorros, ou se gosta de sair pra dançar ou ver desconhecidos dançando, só dou conta disso, quando percebo que a pessoa está olhando pra mim de volta, de uma maneira um tanto desconfortável, e então abaixo os olhos novamente para o livro.
Sempre escolho os primeiros assentos, aqueles que ficam de frente para as portas, e toda vez que ela se abre, já procuro algo de diferente, uma nova historia. Adoro historias, principalmente quando elas se criam sozinhas na minha cabeça.
Legal mesmo foi o casal que senta no chão, bem na porta, inclusive, embaixo da placa que indica que não pode sentar no chão. Mesmo com assentos livres, ali estavam eles, como se só existisse os dois. Ele com uma calça verde, larga, bem legal. Ela com uma mochila, com plantas saindo dos bolsos laterais. Incrível, que pessoa tem seu próprio jardim? Que o carrega pra onde for? Só alguém que vive sem medo dos olhares. Os olhares, eles tinham todos os olhares do trem, naquele momento, entre uma estação e outra. Todos os outros, olhando como se eles fossem anormais. Dava para ver em cada olhar, um ponto de interrogação. Enquanto todos estavam agindo normal, eles estavam agindo como eles mesmos, sem estereótipos. Achei lindo, tinha que registrar, aliás que pessoa tem seu próprio jardim móvel?
Ela poderia ser Gaia do seu próprio universo, ou do universo dele, pois ele a olhava como se fosse algo incomum e lindo. Algo precioso. Os dois transmitiam uma energia tão boa que me afetou. O Afeto me afetou.
Ela tinha um mini jardim em um bolso, talvez se abrisse a mochila, sairia borboletas coloridas, talvez um cheiro de terra molhada e frutas frescas invadiriam o vagão, de repente até um arco-iris se ergueria diante do dia cinzento. Poderia acontecer tantas coisas, mas ninguém enxergar. As pessoas só olham, só vê, mas não enxergam, não enxergam a beleza em pequenos gestos, em pequenos detalhes, nos detalhes que me alegram, me inspiram, me motivam. É uma pena. Pois há tanta beleza nas entrelinhas.
A moça do jardim móvel deixou meu dia mais bonito, mais simples e menos cansativo sem fazer exatamente nada. Obrigada, continuarei sentando nos primeiros assentos e observando cada personagem que entrar pela porta no ultimo vagão.

Que texto demais! Me identifiquei bastante, até porque quando estou nos lugares também observo muito as pessoas. Essa moça que você especificou com flores nos bolsos é real? Hahaha. Amei.
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